Um estudo recente do Federal Reserve de Atlanta, feito em parceria com pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, trouxe um dado que deveria incomodar qualquer executivo que investiu pesado em IA nos últimos anos: cerca de 90% dos executivos entrevistados disseram que a IA ainda não melhorou a produtividade das próprias empresas nos últimos três anos.
A pesquisa ouviu quase 6 mil executivos seniores nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Austrália, entre novembro de 2025 e janeiro de 2026. O resultado numérico é ainda mais direto: 89% das empresas relataram nenhum impacto da IA na produtividade do trabalho, e quando todos os efeitos relatados foram convertidos numa média geral, o ganho ficou em apenas 0,29% ao longo de três anos. Isso apesar de 69% das empresas já usarem alguma tecnologia de IA no dia a dia.
Ou seja, quase três em cada quatro empresas usam IA. E, mesmo assim, o ganho de produtividade médio é praticamente irrelevante.
O problema não é a ferramenta
É tentador ler esse dado como "IA é hype, não entrega valor". Mas o próprio estudo aponta para outra direção. Um levantamento complementar dos mesmos pesquisadores, feito com dados de avaliações de funcionários, relatórios financeiros e anúncios de investimento em IA de empresas americanas, mostrou que os funcionários enxergam a IA de forma mais negativa do que seus próprios empregadores. E o motivo principal não é rejeição à tecnologia em si: é insegurança com o próprio emprego, treinamento insuficiente, pouca oportunidade de desenvolver novas habilidades e liderança fraca na condução da mudança.
Em outras palavras, o gargalo não está no modelo de IA usado. Está em como a mudança foi implementada.
Isso é exatamente o tipo de padrão que qualquer pessoa que já conduziu uma transformação organizacional reconhece na hora. Ferramenta nova sem preparo de equipe, sem comunicação clara do "porquê" e sem liderança presente no processo não gera ganho de produtividade. Gera ferramenta subutilizada e equipe insegura.
O paralelo com gestão ágil é direto
Quem trabalha com metodologias ágeis conhece bem esse tipo de falha, só que aplicada a outro contexto. Adoção de IA sem estrutura de change management tem o mesmo padrão de fracasso de uma transformação ágil mal conduzida: anúncio de cima para baixo, ferramenta nova entregue sem contexto, e a expectativa de que a produtividade vai aparecer sozinha, só pelo fato da ferramenta existir.
Algumas práticas fazem diferença real, tanto para uma transformação ágil quanto para uma adoção de IA:
- Treinamento contínuo, não um workshop único. O estudo aponta treinamento insuficiente como uma das principais queixas dos funcionários. Uma sessão de kickoff não forma ninguém.
- Liderança visivelmente engajada no uso, não só no discurso. O estudo mostrou que o otimismo dos executivos nas conferências de resultado não teve relação nenhuma com o ganho real de produtividade. Discurso não substitui prática.
- Comunicação clara sobre o motivo da mudança. Insegurança com o próprio emprego mina qualquer ganho de produtividade esperado. Se a equipe não entende o porquê, ela reage com cautela, não com adoção.
- Redesenho de processo, não só troca de ferramenta. Dar uma IA de presente para um time sem repensar o fluxo de trabalho é como trocar o motor do carro e deixar a mesma estrada esburacada.
O que fica para quem lidera equipe hoje
O dado mais interessante do estudo, na minha visão, nem é o 90%. É o fato de que os próprios executivos continuam otimistas com o futuro, esperando um ganho médio de produtividade de 1,4% nos próximos três anos, mesmo sem terem resolvido o problema estrutural de implementação. Investir mais em ferramenta, sem mudar o jeito de conduzir a adoção, tende a repetir o mesmo resultado.
A IA entrega valor real. Isso eu vejo todo dia na prática, usando essas ferramentas junto ao time. Mas o valor não vem da ferramenta sozinha, vem de como a adoção é conduzida, treinada e sustentada ao longo do tempo. É basicamente o mesmo princípio que sustenta qualquer transformação ágil bem-sucedida, só que aplicado a um contexto novo.
Fonte: Business Standard — AI's productivity promise remains elusive for 90% executives, study finds, com base em estudo do Federal Reserve Bank de Atlanta e pesquisadores da Universidade de Pittsburgh.
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